O que aprendi com meu Apêndice

Quando você aprende com seu próprio corpo sobre as suas emoções

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O que não estava vendo e o corpo mostrou

Tudo estava programado. Faltavam apenas 4 dias para o nosso embarque rumo à nova etapa de vida da minha filha. O fato de poder acompanhá-la nos primeiros dias era um consolo  e uma tranquilidade. Como mãe vivenciava momentos de tristeza e alegria simultaneamente, seja pela sua partida e também  pela certeza de que será uma experiência maravilhosa na sua vida.

Isso era o que estava na minha superfície emocional até que veio uma situação física para me mostrar o quanto nas profundezas essa ruptura estava sendo difícil. Uma cólica indesejada próxima à região do umbigo que depois se transformou numa dor diferente na parte inferior direita da barriga. Não tinha como negar que algo não estava bem e o cenário que não queria que se configurasse começou a tomar forma. Pude protelar por um dia, mas a confirmação na tomografia validou o que mais temia: era um apendicite que demandava uma cirurgia imediata. Meu mundo veio abaixo. Como assim? Como fazer para absorver essa separação abrupta e precoce que iria acontecer e que não estava nos planos? A médica me consolava dizendo que podia ser um livramento mas mal sabia ela que, para esse consolo trazia junto o receio de acontecer algo com o avião da minha filha e eu não poder estar junto.

Acolhendo a minha humanidade

Sim, sou terapeuta e coach, me trabalho emocionalmente há decadas e vez por outra a vida me convida a olhar esses lugares imaturos, onde a minha parte infantil se congela de medo tal qual a menina de 5 anos que mora em mim. Acolhi todos eles. E aceitei o impoderável. Me entreguei à experiência e me permiti viver tudo o que precisava: as alegrias, tristezas, medos e a entrega. Tudo ao mesmo tempo.

Mesmo racionalmente sabendo que teria sido muito pior se acontecesse no avião ou mesmo num país estrangeiro, não conseguia ser grata num primeiro momento. Na verdade não queria ser grata porque não estava querendo lidar com a frustração das coisas não terem acontecido como gostaria. E tudo o que aprendi nesta jornada de autoconhecimento já me dizia que a minha parte adulta poderia lidar com o que estava vivendo, então era sinal de que a minha criança imatura estava reinando no pedaço, pois a criança não consegue lidar com a frustração, já que para ela só existe o aqui e agora.

A Doença como Símbolo

No livro A Doença como Símbolo, de Rüdiger Dahlke o apendicite tem a ver com um conflito entre a região fronteiriça da “infância inocente” e o “perigoso mundo dos adultos”. Para mim,como mãe, sintetiza exatamente o dilema que estava vivendo: vemos os nossos filhos como crianças, independentemente da idade que tenham e o movimento da minha filha era justamente o de ir para o mundo, num país distante. Por mais que saiba que ela tem todos os recursos para lidar com os desafios, que é uma tremenda oportunidade de crescimento, o medo que sentia estava sintonizado com esse “perigo do mundo dos adultos” no qual ela ia entrar de vez e longe de mim.

O que aprendi

A dificuldade de romper com isso fez com que meu apêndice inflamasse e precisasse soltar forçosamente a mão dela para que pudesse passar pelas experiências necessárias, se fortalecer e crescer. Sem contar o mundo novo que se abre para ela. Para mim, o aprendizado foi a entrega e confiança. Saber que não se pode controlar a vida e quando tentamos, além de limitar as nossas possibilidades de experiências, nos iludimos.

Esse apendicite me libertou do controle e me fez experenciar novas situações. Não foi fácil, mas com certeza a minha musculatura emocional ficou muito mais parruda.

Rompi a resistência de soltar a minha filha. Isso na minha ilusão porque no fundo ela sempre foi uma alma livre e dona de sua vida por direito. Por mais que agisse assim como mãe, validando essa verdade, uma parte minha resistia a soltar por medos infantis que negava acolher e me faziam andar em algumas situações com o freio de mão puxado.

Depois de alguns dias, olho para trás e agradeço a tudo o que vivi. E percebo que, mais do que soltar a minha filha, liberei a mim mesma.

Obrigada apêndice!

 

 

 

4 COMENTÁRIOS

  1. É mesmo difícil a gente ver que não pode controlar tudo, apesar de termos este ” poder de mãe” leoa que acredita que pode tudo. Na verdade podemos, quase tudo! Quem bom que se fortaleceu. A Clara vai tirar de letra estamos todos torcendo por ela! Sucesso pra você Isa, sempre aprendendo com suas vivências, lindo demais.

  2. Bel, que sabedoria e maturidade. A vida sempre nos ensinando. Você escreve tão bem que me emocionei. Chorei ! Aprendi mais uma vez com você. Orgulho de ser sua Amiga. E a Clara ? Já está voando para o sucesso e felicidade embasada na sólida educação de vocês.

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